Fazer flashcards das anotações: o que funciona
Fazer flashcards das anotações significa transformar afirmações que você já escreveu em perguntas que precisa responder de cabeça. O valor não está em ter os cards, está no ato de puxar a resposta da memória sem olhar. Uma página de caderno permite que você reconheça o conteúdo; um monte de cards obriga você a produzir esse conteúdo, e são duas habilidades diferentes.
Essa distinção é o conceito inteiro. Todo o resto, qual aplicativo usar, quantos cards fazer, em que formato, vem depois disso.
Por que a conversão funciona
O motivo tem nome na psicologia cognitiva: efeito de teste, ou prática de recuperação. Nos experimentos de Roediger e Karpicke de 2006, estudantes que leram um texto uma vez e depois fizeram testes de memória lembravam bem mais uma semana depois do que estudantes que releram o mesmo texto várias vezes, mesmo que o grupo da releitura se sentisse mais confiante durante o estudo. Confiança e retenção se separaram.
A revisão de técnicas de estudo feita por Dunlosky e colegas em 2013 classificou a prática de testes como uma das duas estratégias de maior utilidade entre todas as que analisaram, ao lado da prática distribuída. Reler e grifar, justamente as duas coisas que a maioria dos estudantes faz, ficaram no grupo de baixa utilidade.
Flashcards são o jeito mais barato de aplicar prática de teste no seu próprio material. Suas anotações já são o conteúdo. Converter custa uma noite. A alternativa, esperar o professor te cobrar numa prova, é lenta demais e acontece uma vez só.
O que faz um card ser um card
Nem toda linha do caderno vira um card útil. Um card funciona quando tem uma resposta só, e quando a pergunta não entrega essa resposta.
| Linha da anotação | Card ruim | Card bom |
|---|---|---|
| "Mitocôndria produz ATP por fosforilação oxidativa" | "A mitocôndria produz ATP por ___" | "Qual organela produz a maior parte do ATP da célula, e por qual processo?" |
| "Crise de 1929 desencadeou a Depressão; quebras de bancos vieram depois" | "O que aconteceu em 1929 e o que veio depois?" | "Qual foi a consequência bancária imediata da crise de 1929?" |
| "Busca binária tem complexidade log n" | "A busca binária é O(log n) porque divide o espaço de busca pela metade" | "Qual é a complexidade de tempo da busca binária, e por quê?" |
Três padrões de falha aparecem o tempo todo. O primeiro é o card com duas respostas costuradas, que você nunca consegue marcar como certo ou errado com honestidade. O segundo é o card cuja formulação entrega a resposta, comum quando você copia a frase e apaga uma palavra. O terceiro é o card que testa uma palavra em vez de uma ideia, então você decora o rótulo e não o mecanismo.
Um filtro rápido: se você não consegue falar a resposta em voz alta em menos de quinze segundos, o card está fazendo coisa demais. Divida.
De onde os cards devem vir
Existem três fontes, e elas não são equivalentes.
Suas próprias anotações produzem cards que batem com o que o professor realmente enfatizou. É por isso que vale fazer o trabalho você mesmo, mesmo quando já existe um baralho pronto. O custo é que, se a sua anotação tem um buraco, o seu baralho tem o mesmo buraco, em silêncio.
Baralhos prontos do Quizlet ou coleções compartilhadas do Anki economizam horas e são úteis de verdade em conteúdo padronizado: terminologia médica, vocabulário de idioma, qualquer coisa com um corpo fixo de fatos. Eles falham quando a disciplina é particular. O baralho de outra pessoa para "Introdução à Psicologia" não sabe que o seu professor passou três semanas em um único estudo.
Cards gerados, quando um software lê suas anotações e escreve as perguntas, ficam no meio do caminho. A geração é rápida e a cobertura é uniforme, mas ela herda o que estiver nas suas anotações e não consegue distinguir uma frase importante de uma frase descartável sem ajuda. Vale saber disso antes de supor que a saída está pronta para a prova. Se você quer a versão prática disso, transformar anotações em flashcards mostra quanto tempo cada caminho custa.
A parte que todo mundo pula
Montar o baralho parece estudar. Não é. É preparação para estudar.
O ganho medido em todos os estudos de prática de recuperação vem do teste, espalhado ao longo de vários dias. Um baralho feito na véspera da prova e revisado duas vezes entrega uma fração do que o mesmo baralho revisado por dez minutos ao longo de seis dias entrega. Essa é a conclusão sobre prática distribuída que aparece ao lado do efeito de teste na mesma revisão de Dunlosky, e as duas se somam.
Na prática: monte o baralho cedo, de uma vez só, e aceite que ele vai sair imperfeito. Depois revise em sessões curtas. Cards que você acerta sempre devem parar de aparecer; cards que você erra devem voltar antes. Esse agendamento é exatamente a razão de existirem os aplicativos de repetição espaçada.
Quando o flashcard é a ferramenta errada
Flashcard é um dispositivo de recuperação para fatos isolados e definições fechadas. Ele é ruim em qualquer coisa que exija segurar várias ideias ao mesmo tempo e construir um argumento.
Se a sua prova tem redação ou questão discursiva, um card perguntando "quais foram as causas da guerra" te treina a recitar uma lista, não a defender uma tese. Se a prova é uma dedução de vários passos, um card com a fórmula final pula justamente as etapas onde você perde ponto. Se o conteúdo é um procedimento, você precisa executar o procedimento.
Eles também têm uma falha silenciosa: dependência de ordem. Revise o baralho sempre na mesma sequência e você começa a lembrar pela posição, não pela pergunta. Embaralhe, ou o baralho passa a mentir sobre o que você sabe.
Para conteúdo que resiste ao formato de card, questões completas feitas a partir das suas anotações costumam ser o instrumento melhor, porque o formato imita o que vão te pedir no ENEM ou no vestibular.
Um processo que funciona
- Termine o assunto primeiro. Cards feitos de anotações que você ainda não entendeu codificam a sua confusão.
- Leia uma seção e marque cada linha que traz um fato, uma definição, uma relação ou um número.
- Transforme cada marcação em uma pergunta com uma resposta. Reescreva, não apague uma palavra da frase original.
- Escreva a resposta no verso com suas palavras, curta o bastante para falar em voz alta.
- Revise no dia seguinte, depois dois dias depois, depois quatro. Tire fora o que você já sabe de cor.
O Qora faz os passos dois e três a partir de uma foto das suas anotações ou de uma gravação da aula, e depois gera perguntas em vários formatos: múltipla escolha, completar lacuna, resposta escrita e recuperação livre. O reconhecimento de texto e a transcrição rodam no próprio aparelho, então a imagem ou o áudio em si não sai do seu celular. O passo um continua sendo seu, e o passo cinco também.
Perguntas frequentes
Quantos flashcards uma aula deve render?
Entre quinze e quarenta para uma hora típica de conteúdo, dependendo da densidade. Se você está produzindo cem, está fazendo card de frase em vez de card de ideia. Se está produzindo cinco, provavelmente está pulando definições que você supõe já saber.
Melhor escrever os flashcards à mão ou digitar?
Escrever à mão obriga você a resumir, o que já é um processamento útil, mas é lento e os cards não podem ser agendados automaticamente. Digitar ou gerar te leva mais rápido à fase de revisão, e é na revisão que o aprendizado acontece. Se o tempo está curto, digite. Veja como fazer flashcards em casa para a versão em papel.
Preciso fazer card de tudo que está no caderno?
Não, e tentar fazer isso é a forma mais comum de desistir no meio. Faça card do que te deixaria constrangido esquecer: definições, mecanismos, datas que ancoram uma sequência, fórmulas que você precisa produzir de memória. Contexto e narrativa você pode reler.
Um software consegue fazer bons flashcards de anotações bagunçadas à mão?
Ele consegue ler, normalmente bem, e consegue transformar afirmações claras em perguntas claras. O que ele não consegue é consertar anotações que já estavam incompletas, nem deduzir que uma frase importa mais do que as vinte ao redor dela. Confira a saída contra a ementa da disciplina em vez de supor que a cobertura está completa.
Fazer flashcards das anotações é um trabalho de tradução: afirmações viram perguntas, e reconhecimento vira lembrança. Os cards em si são baratos; a disciplina de se testar com eles ao longo de vários dias é o que produz o resultado que a pesquisa descreve. Pegue uma seção das anotações da semana passada hoje à noite, converta em quinze perguntas com uma resposta cada, e se teste nelas amanhã antes de olhar qualquer outra coisa.